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11.05 – Garça cantou de cisne (Parte II)

(clique aqui para ler a primeira parte deste artigo)

A apenas poucas semanas da abertura da B-1 2003 a tradicional equipe do Garça anunciou sua desistência do campeonato. Uma notícia triste, pois o Garça Futebol Clube disputou o Campeonato Paulista em quarenta edições desde 1950, quando iniciou sua participação no futebol profissional. Ao longo de décadas, frequentemente a equipe mostrou um esquadrão forte e revelou vários craques, como o goleiro Valdir Peres. Chegou até a títulos, como o de campeão paulista da 3a divisão, em 1969.

Mas o Garça de hoje é, lamenta-se, muito diferente do de outrora, daquele das décadas de 1970 e 1980. A atual gestão do clube foi obrigada a desistir do campeonato de 2003 por absoluta falta de condições financeiras de bancar a disputa. A agonia do Garça foi longa. E, curiosamente, esta história de final triste teve um início risonho.

Tudo começou há cerca de três anos. Após uma campanha fraca no ano de 1999, a equipe estabeleceu um vínculo de co-gestão com a empresa Americansports, que chegou prometendo colocar o Garça na primeira divisão no espaço de dois anos, com acessos consecutivos da A-3 para a A-2, e da A-2 para a A-1.

Com este novo apoio, o Garça fez uma temporada espetacular em 2000. Foi o melhor time do campeonato, e estava com uma mão e meia no título quando, de forma supreendente, foi derrotado pelo azarão Nacional na final do campeonato. Por ironia, o esdrúxulo regulamento da Série A-3 em 2000 promovia uma equipe no primeiro turno (o Olímpia) e uma no final da disputa (o Nacional). Assim, o Garça, dono da melhor campanha no geral, ficou a ver navios.

E então, tão rápido como começara, o sonho acabou. Ao invés de construir uma segunda temporada com base no sucesso do ano anterior, o suporte desmoronou. Por um lado os planos eram ambiciosos demais; outros observadores da cidade de Garça dizem ainda que faltou “cancha”, experiência administrativa, cabeça fria. E não houve,, tampouco, planejamento para o amanhã. O clube fez uma campanha medíocre em 2001, e só se salvou do rebaixamento na última rodada. Ficou em antepenúltimo lugar – os dois últimos, Taquaritinga e Inter de Bebedouro, caíram para a B-1.

Os recursos se foram tão rápido quanto chegaram. Pior: o clube então já havia ficado completamente dependente do apoio externo. O ano de 2002 foi ainda pior para o Garça: sem estrutura, sem apoio, e dependendo completamente da paixão e dedicação de alguns abnegados, a equipe fez uma campanha de envergonhar seu passado. Terminou a temporada à frente apenas do União de Mogi – e, com este, caiu para a B-1.

Durante a entre-temporada de verão pouco se ouviu falar dos preparativos do Garça para o ano de 2003 – e, no futebol, a falta de notícia é um mau agouro. E assim, a apenas duas semanas do início da disputa da Série B-1, o Garça deu adeus ao futebol profissional – um fim triste e apagado, que muita contrasta com uma história de tanto brilho.

Fica o exemplo para os outros clubes do interior: é preciso fazer a lição de casa, ao invés de acreditar que, do dia para a noite, surgirá um benfeitor milionário que transformará a equipe em uma potência futebolística – e em troca de pouco. Para os de parcos recursos, como os clubes do futebol do interior paulista, o planejamento cuidadoso e a tomada de decisões de forma estratégica é ainda mais importante, pois não há muito a disperdiçar.

E quando uma oportunidade dourada aparece – como um acordo de co-gestão, uma proposta de patrocínio ou um plano de desenvolvimento de jogadores com um clube de maior expressão – deve-se não apenas agarrá-la firme, mas fazer bom uso dela. É preciso estratégia, disciplina – e, além disso, fazer bom uso das vacas gordas; elas são raras. É preciso preparar-se para os dias que não se puder contar com elas, pois o que vem fácil e súbito vai embora da mesma maneira.

(por S. Chiappetta)

 

 

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