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"O apito caiu"

Corria o ano de 1981, e a Santa Ritense fazia má campanha no Campeonato Paulista da Terceira Divisão - talvez a pior temporada da história do clube no futebol profissional. O time perdia partida após partida, em geral jogando mal, muito mal. E quando se apresentava um pouquinho melhor, a falta de sorte e alguns fatores esdrúxulos mancomunavam para atrapalhar a equipe...

No dia 19 de maio daquele ano a Santa Ritense jogava em casa contra a Sanjoanense, de São João da Boa Vista, na época uma das melhores equipes do grupo. Um jogo difícil, suado, em que a muito custo a Santa Ritense conseguia segurar em empate, pelo placar de um a um. Este era um resultado que, levando em conta as circunstâncias, poderia ser considerado excepcional.

E então, passada mais da metade do segundo tempo, eis que um jogador da Sanjoanense cai na área da Santa Ritense. Para surpresa de todos, o árbitro Paulo E. Pereira Barjas assinala pênalti, resoluto. Ninguém entendeu nada - nem mesmo os jogadores da Sanjoanense, que continuaram o lance, nem o bandeirinha que olhava boquiaberto.

E ainda menos poderiam entender, é claro, os jogadores da Santa Ritense: muitos reclamaram, cercarando o arbitro. Outros se limitaram a levar as mãos à cabeça, julgando ser impossível que tamanho erro de arbitragem pudesse ser cometido. Nem  mesmo o jogador da Sanjoanense que teria sofrido o tal pênalti imaginário conseguia entender a marcação. Como diz a gíria do futebol, "o juiz marcou perigo de gol".

E como desgraça pouca é bobagem, o pênalti foi convetido em gol, e a Sanjoanense passou à frente, com o marcador agora indicando 2 a 1. Das arquibancadas choviam reclamações e referências pouco elogiosas ao árbitro. Com a sofrida torcida do Tico-Tico já a caminho do desespero, enfim o time da Santa Ritense parte para frente e consegue, com alguma dificuldade elaborar um ou outro lance de perigo.

E numa destas jogadas o meia esquerdo Julinho da Santa Ritense é clamorosamente derrubado dentro da área de ataque. "Pênalti!" gritam os jogadores da Santa Ritense, ecoando o grito da torcida. Enfim uma oportunidade para re-empatar o jogo!

Foi então que ocorreu algo inacreditável, daquelas coisas que só aconteciam nas divisões menores do futebol dos anos 1980. Ninguém escutou o apito do juiz. Todos pararam esperando a marcação de penalidade máxima, mas o juiz limitava-se a fazer gestos desengonçados. A bola ficou por um instante parada na área, com os jogadores das suas equipes se entreolhando, confusos, até que um zagueiro da Sanjoanense tomou o seu domínio e saiu jogando.

Os jogadores da Santa Ritense cercaram o árbitro, possessos e perplexos. Como seria possível que ele não tinha marcado pênalti em um lance tão claro?, peguntavam-lhe. O árbitro encolheu os ombros e lamentou o ocorrido, explicando que o apito havia caído de sua boca durante o lance e que, assim, ele fôra impedido de assinalar a falta... E não houve maneira de convencê-lo de que ele poderia ter parado o lance com um grito, ou mesmo um gesto abrupto. Os jogadores da Santa Ritense, que já estavam revoltados com o desempenho do árbitro, foram à loucura...

E, como era de se esperar, o Sr. Barjas teve muita dificuldade em sair do Estádio José Pereira da Silva depois da partida, após um dos lances mais bizarros - e bisonhos - da história do futebol paulista.



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